Durante muito tempo, a morte foi para mim uma ideia guardada em uma gaveta esquecida. Eu sabia que ela estava lá, mas raramente me permitia tocá-la. Era um conceito quase abstrato, um tema para conversas filosóficas ao cair da tarde, mas desprovido de peso real. Eu desfrutava do privilégio de tratar o fim como uma abstração, um cenário pálido projetado em um futuro que nunca parecia chegar. Minha vida estava intacta, e a minha paz era o subproduto dessa ignorância.
Mas a vida, com sua ironia silenciosa, começou a recolher as peças do meu tabuleiro.
Primeiro, partiram os que já estavam mais próximos da minha existência; depois, alguns animais que eram o coração da casa; e, enfim, aqueles que caminhavam ao meu lado, com o mesmo vigor e a mesma idade. De repente, a morte deixou de ser uma tese para se tornar presença. Ela não chegou com buzinas ou alarde, mas se instalou no silêncio ensurdecedor de um quarto vazio, no número de telefone que a memória insiste em discar, na ração que sobra, intacta, no pote ao canto da cozinha. Foi nesse deserto que compreendi a maior das crueldades: o que nos dilacera não é o ato de morrer, mas o de permanecer. É o desconcerto de ter que continuar habitando um mundo que segue girando, jantando e rindo, enfim, existindo...
O luto não é um evento com data de validade; é uma vizinhança desconhecida onde passamos a morar sem aviso prévio. O corpo aprende um novo peso, uma gravidade feita de alerta e vigilância. Às vezes, o peito aperta e o ar escasseia não por uma ameaça concreta, mas pelo trauma de saber que o "pior" agora tem rosto e endereço. Passamos a caminhar sobre um lago congelado: mesmo quando o gelo parece espesso, nossos passos são curtos e tensos, sempre à espera do próximo estalo sob os pés.
Nossa maior vulnerabilidade não reside na certeza da finitude, mas na imprecisão do tempo que nos resta. Habitamos um estranho limbo existencial, suspensos no intervalo cego entre saber que o golpe virá e desconhecer o segundo exato em que ele nos alcançará. Vivemos sob a sombra de um evento certo com data incerta, equilibrando em corda bamba invisível.
Seguimos assim, carregando essa vigilância na poço da mente e tentando ignorar que o destino, embora silencioso sobre o "quando", já foi implacável sobre o "sim". No fim, nos resta a tarefa árdua de encontrar beleza em cada respiração, enquanto aprendemos que a ausência não é um vácuo, é uma parte nova, densa e definitiva da nossa própria existência.

Dolorido e belo esse texto <3
ResponderExcluirFlutuando por aqui na imprecisão do tempo que me resta, lembrando que se nenhuma realidade me agrada ainda tenho sempre escapatória pela janela da minha imaginação, onde o mundo é inteiramente meu para sonhar.
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