sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma Efêmera Faísca

 Às vezes, uma canção ainda me acha. Não a procuro; ela me atinge, como se aguardasse o instante certo. Ao ouvi-la, retorno a uma época em que eu me julgava sem energia, quando tudo parecia difícil demais para suportar com alegria. Contudo, estranhamente, era ali que algo se agitava em mim.

Essa mesma melodia, hoje tão longínqua, me impulsionava para algo além, não porque eu soubesse o destino, mas porque, por instantes, eu sentia que podia seguir. Havia uma alegria singular, pura, sem aditivos: um estado raro em que o corpo parecia mais leve que as ideias, e a vida, mesmo difícil, ainda abria brechas. Eu me sentia motivado, quase solto, como se houvesse um futuro viável só por sentir.

Hoje, ao recordar esse som, noto que escrevi aquele texto preso a uma emoção que talvez não seja mais minha. A ânsia de ser livre não sumiu totalmente, mas perdeu a pressa, a força. Ela vive agora como lembrança: algo que reconheço mais do que vivo. A vida ainda me perturba, ainda incomoda, ainda pede razões que não sei explicar. Mas existe uma mudança cruel: antes, o incômodo me levava; agora, ele só persiste.

Talvez a vida tenha ganhado, sim. Não de modo bruto, mas pelo cansaço, pela rotina muda dos dias, pela conversa eterna com a realidade. Ainda assim, quando essa canção soa, mesmo que rápido, algo antigo revive. E talvez isso seja o que sobrou da liberdade: não a vontade de escapar, mas a certeza de que um dia eu quis desejar mais.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Familiar Weight

 I am a shell, a quiet storyteller.
When I fall silent, I feel half here,
like someone passing through their own life.

My spirit doesn’t scream,
it leaks slowly,
in tears that learned how not to fall.

They say they miss me.
I believe them.
Still, distance feels like a softer way to breathe.

I went too deep into reality,
thinking I could understand it.
It answered by pressing back,
until I mistook pressure for purpose.

Now time watches me closely.
I count it without meaning to.
My memories don’t visit 
they settle in,
they sit beside me
and refuse to leave.

They hold me still,
not with fear,
but with familiarity.

I am the one who laughs at the wrong moment,
who turns sadness into small jokes,
as if humor could translate
what I don’t know how to say.

I look for a place where I can rest
without explaining myself.
I avoid bright places
that ask too many questions.

I don’t want to disappear.
I just want the noise to lower,
the thoughts to loosen their grip,
and the world
to touch me
with less weight.