terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Nosergico

De um adolescente frágil para um adulto confuso. Os trinta chegaram, e a única coisa que eu precisava ter eu não tenho.

Lembro-me de ser bem jovem e cheio de energia. Embora eu tenha sido sempre nostálgico, eu não era um suicida em potencial. Desde muito novo eu sempre quis saber o porque das coisas e por isso deixei de prestar atenção ao fato de estar vivo.

Mas eu vou busco na minha memória e lembro que eu sempre estava desanimado. Eu lembro de pegar minha bicicleta e andar a toa, procurando o que fazer, procurando algum espaço que eu pudesse chamar de meu. Aquele tempo nublado, a brisa gelada na minha cara e as perguntas não paravam de martelar em minha cabeça frágil.

Parece que tudo aquilo foi inútil, parece que dezessete anos passaram em vinte e quatro horas.
Foi tudo tão depressa...

Já fui de me arrepender mais...mas os erros próximos a minha fase adulta apagaram todas as outras consequências que eu tomara quando mais novo. Ficou tudo pequeno, barato e de fácil compreensão, independente da falta de maturidade...
O fato é que as escolhas vão se tornando mais pesadas a medidas que você se aproxima da reta final. Essa mania de medir a morte por anos...

Quando criança eu me sentia morto, às vezes. E meio que eu entrava em parafuso, porque eu queria estar vivo, mas nada me agradava tanto. Poucas me faziam sentir conforto. A diferença é que por ter a cabeça mais leve eu não ligava tanto assim, mal eu sabia o quanto ia ficar pesado depois.

Eu já tinha umas visões meio pessimistas sobre o futuro. Lembro do meu primeiro dia na quinta série, choveu muito. Eu não conhecia quase ninguém, muita gente da minha sala tinha vindo de outra escola. Ai eu pensei que teria de conhece-los. Enquanto uma chuva pesada caia, eu olhava pro rumo da janela e enxerguei uma moça e pensei: "será que ela sabe que eu existo"?
Consigo sentir a mesma sensação, aquela ansiedade projetada por algo novo. E não essa ansiedade de hoje, que mais parece um trem sem freio, querendo passar por cima de tudo, me jogando pra fora e me colocando pra dentro no mesmo instante.
Naquela tarde eu já estava vendo muita coisa sobre o futuro, era sobre adaptação. E como eu sempre tive preguiça e cansaço mental disso.

A timidez era uma defesa que eu tinha...na verdade sempre tive medo do que iam achar de mim. Eu preocupava se iam me achar interessante, bonito, importante. No futuro eu demonstrei ser fraco, embora com o passar do tempo eu tenha sido mais visto, mas acho que esperaram demais de mim.
Daquela época em diante eu nunca mais fui o mesmo. Ainda com onze anos e eu já sentia como se tivesse perdido dentro de um buraco negro.

Não sinto tanta falta mais como antes, acho que eu me matei aos poucos. Fiquei conformado demais. Olhava muito pra fora, não via por dentro. Ajudava alguns próximos a mim e quanto a mim...? Bom, eu tive medo do que fazer comigo mesmo. Parece que meu maior adversário sou eu mesmo.
Todos os medos, frustrações eram projetadas em pessoas. Eu meio que criava meus próprios monstros, mas como eles não tinham corpos, eles eram projetados em outros. Ai eu tentava encarar, mas sem sucesso.

Eu criei histórias onde eu podia me aventurar e dar graça a vida. Era uma fuga que eu precisava. Eu precisava ser caçados por fantasmas, seres de outros planetas, pessoas supostamente malignas. Eu acreditei tanto nisso...

Ai um dia eu percebi que devia escrever sobre tudo que eu vivia, acreditava. Que eu devia fazer músicas sobre todos os acontecimentos que me cercava. Sabe, eu sempre quis me afastar um pouco do mundo real, mesmo enfiando na minha cabeça toneladas de lembranças sobre a realidade, seja em forma de som ou de escrita. Quando eu o faço parece que tudo fica menos pesado e sério, ai consigo entender que não é tão grave assim.

Hoje eu "luto" contra uma ansiedade avassaladora, que nunca me deixa relaxar de fato. Embora alguns já tenham me visto "bem". Minha mente ainda está em problemas.

Espero sobreviver mais um pouco ainda pra ter alguma história interessante pra contar a mim mesmo.


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