terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Dilema



Achei uma carta onde uma pessoa listava alguns motivos para não se matar, lembro-me que o papel já estava sujo, velho e a tinta meio borrada. Mesmo assim consegui ler alguns dos motivos.
O primeiro motivo era bem simples e direto: “Não me matarei pois a vida é rara”. O segundo motivo falava sobre sua a família.
O terceiro motivo era bem claro: “Não quero me matar, tenho medo de nunca mais conseguir comer”.
O último e quarto motivo falava sobre o medo da morte.
A primeira coisa que eu quis fazer quando vi essas razões, foi pensar num meio menos sujo e indolor para me matar.

Mas ai depois de algum tempo caiu a ficha. Não precisamos de ter motivos para fazê-lo ou não, apenas questione sobre tudo. O vazio vai te encarregar do resto.

O primeiro contato que eu tive com a morte, foi quando eu cresci. Percebi que esse jogo era sem graça e que eu nunca quis participar.
Quando criança eu já achava estranho ter de fazer o que fazia. Sentia-me como uma peça sem encaixe. E permaneço assim até hoje. 

Obviamente as distrações vão nos dando segundas chances que parecem eternas,  às vezes até o cansaço sucumbe as ilusões, mas isso já faz parte do método do jogo.
Essa doença estranha de ter que se manter vivo custe o que custar. 

Depois de ficar mais velho, eu comecei a encarar tudo de forma diferente. Eu percebi que a vida tinha uma “vida própria”, e que ela brincava conosco, de modo que o único jeito de vence-la seria não participando das regras, ou seja, se matar se tornou uma obsessão.  Ela era como uma inimiga que nunca saia do meu pé. 

Rejeitar tudo isso era uma tremenda dor de cabeça, pois haviam as obrigações sociais, essas que também nos levam ao abismo.

Mas ai gerou-se um paradoxo gigante em mim: a depressão.
A depressão tirou tudo isso da minha cabeça, e a única coisa que eu pensava era em sofrer. Foi me incomodando tanto a ponto de que me fizesse perder certo controle que eu tinha, ai foi que eu quis sair da doença.
Só que quanto mais eu pensava em sair, mas eu via que a morte nada tinha a ver com isso. Nem a morte, nem a vida.
Um embate dentro da minha mente se instaurou, e isso era pior do que qualquer tristeza, pois era independente da melancolia.
Quando uma doença sobrepôs a outra, tudo ficou mais complicado.
Comecei a pensar na possibilidade de fazer um tratamento. Mas quanto mais eu pensava, mais eu tinha medo de que surtisse efeito e eu fosse escravo da vida novamente.
Parece que eu não tinha por onde ir...

A vida pessoal ia se afundando...desisti do tratamento e achei que eu fosse auto suficiente.
Foi ai que eu tive a ideia de escrever.. e quanto mais eu escrevia e falava sobre tudo, menos estressado eu ficava.  Quanto mais eu vomitava a violência dentro de minha mente, mais eu me sentia em paz. Claro, era tudo questão de alguns minutos, as vezes horas, estava dentro do normal.
Nesse processo todo eu fui criando monstros para que eu tivesse um motivo para lutar. Eu os criava e tentava encontrar métodos diferentes para mata-los todo o santo dia.
Enquanto isso minha vida ruía, sem emprego, sem grana, sem relacionamento (mas isso não importava muito).
Não era só a vida que era inimiga mais, era os monstros, a descrença, a falta de coragem para deter a própria vida. Era o problema de carreira, era a falta de animo, o corpo cansado, as garras da profundidade. 

A depressão continuava, mas ela parecia o menor dos problemas...pelo incrível que pareça, eu conseguia separar todos os sentimentos dela.
Até que fiquei escravo de escrever. Eu escrevia mais do que lia, eu escrevia mais do que eu vivia.
Deu-me até saudade de quando eu encontrei aquela carta...eu era mais ou menos normal naquela época, mas aquele conteúdo de alguma forma foi o estopim para que eu enxergasse as coisas de outro jeito. 

Mas e aquele cara, será que ele se matou? Será que aquelas merdas de motivos foram suficientes para ele aceitar o jogo da vida?
Será que ele está entre nós? E se não estiver, será que ele está conseguindo se alimentar no inferno?

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