segunda-feira, 14 de março de 2016

Enterrei Meus Amigos.



Antes de enterrar meus amigos, pensei que eles seriam ser um mal necessário, algo como a melhor coisa dentre as piores. Ou a pior coisa entre as piores.

Eu não queria pensar muito, pois eu poderia mudar de ideia antes de colocar a terra.
Mas eu quis sentar numa pedra, propositalmente colocada por Deus para descansar minha bunda gorda. Ali sentei. Ali pensei...
Quantos esqueletos eu tinha guardado na minha coleção. Quantas almas amigas eu prendia em minhas gavetas. 


Pensei que o melhor amigo poderia ser eu mesmo, assim como meu inimigo é.
Recordei-me das situações em que mãos foram estendidas não somente para pedir algo, mas para ajudar a sair de algum buraco. Mas...sabe... estar em algum buraco pode ser válido.


Digo, qual amigo nesse mundo vai dizer totalmente a verdade na sua, na minha cara?
Cuspir em nossas caras de cor cinza e dizer que você merece o buraco em que está.


Os sonhos foram embora junto com a terra. E as vidas de merdas nunca foram compatíveis com as nossas vontades, mas elas agiram de acordo com as nossas decisões.


Minha bunda está doendo. E, sabe, eu não deveria ter ficado sentado aqui nessa pedra, sinto incomodo, e isso me lembra dor...e isso me lembra que um dia precisarei enterrar meu cachorro.

Eu vou enterrar a todos, menos a mim mesmo. Esse peso ficará a cargo de quem me segurou por muito tempo: meus amigos miseráveis.


Sou muito gordo, minhas banhas fará o caixão descer até ao último palmo.
Sinto pena dos meus amigos, pobres coitados que precisarão de guindastes pra segurar esse saco de banha que sou. Essa pessoa que parece um zumbi de baleia e ainda tem a audácia de pegar uma pá e enterrar os poucos filhos das putas que ficaram pra depois da festa.


Uma vez as coisas já afundadas...bem, você sabe, elas tendem a voltar. Eu ainda não sei que excitação é essa por querer ser revivido, as coisas se renovam, mas por algum motivo é bom começar do mesmo ponto.


Todos aqueles momentos se eternizaram numa espécie de memória em nuvem. Há uma conexão atualizada a todo o momento em minha cabeça que me faz lembrar daqueles dias que quase morremos.


Eu preciso enterrar meus amigos. Eu apenas preciso de coragem e força.
Mas mortos eles não estão, ou seja...serão enterrados vivos, mas quando que isso não fez parte do habitual?
Depois de feito todo esse processo e eu ainda não me sentir por satisfeito e não sobrar nenhum amigo, vou pedir para meu cachorro me enterrar.


Texto inspirado do livro "Acabando com a Vida em Dois Dias", De Malcatricio Amante. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário